quarta-feira, 5 de junho de 2013

Intertextualizando...

Trabalhar fábulas  e  intertextualidade pode levar os alunos à prática da leitura.  Vejam estes textos que trazem a intertextualidade na fábula da La Fontaine.

A Cigarra e a Formiga

Tendo a cigarra, em cantigas,
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema,
Na tormentosa estação.
Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.
– Amiga – diz a cigarra
– Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos, antes de Agosto,
Os juros e o principal.
A formiga nunca empresta,
Nunca dá; por isso, junta.
– No verão, em que lidavas?
– À pedinte, ela pergunta.
Responde a outra: – Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
– Oh! Bravo! – torna a formiga
– Cantavas? Pois dança agora!

O Livro das Virtudes
Uma antologia de William J. Bennett, 1995



Contrafábula da Cigarra e da Formiga

A formiga passava a vida naquela formigação, aumentando o rendimento da sua “capita” e dizendo que estava contribuindo para o crescimento do Produto Nacional Bruto. Na trabalheira do investimento, sempre consultando as cotações da bolsa, vendendo na alta e comprando na baixa, sempre atenta aos rateios e às subscrições. Fechava contratos em Londres já com o pé no Boeing para Frankfurt ou Genebra, para verificar os dividendos das suas contas numeradas.
Mas vivia também roendo-se por dentro ao ver a cigarra, com quem estudara no ginásio,  metida em shows e boates, sempre acompanhada de clientes libidinosos do Mercado Comum.
E a formiga vivia a dizer por dentro:
- Ah, ah! No inverno, você há de aparecer por aqui a mendigar o que não poupou no verão! E vai cair dura com a resposta que tenho preparada para você!
Ruminando sua terrível vingança, voltava a formiga a tesourar e entesourar investimentos e lucros, incutindo nos filhos hábitos de poupança, consultando advogados e tomando vasodilatadores.
Um dia, quando voltava de um almoço no La Tambouille com os japoneses da informática, encontrou a Cigarra no shopping Iguatemi, cantarolando como de costume.
“Lá vem ela dar a sua facada!”, pensou a formiga. “ Ah, ah, chegou a minha vez!”
Mas a cigarra aproximou-se  só querendo saber como estava ela e como estavam todos no formigueiro
A formiga, remordida, preparando o terreno para a sua vingança, comentou:
- A senhora andou cantando na tevê todo este verão, não foi, dona Cigarra?
- É claro!- disse a cigarra- Tenho um programa semanal.
- Agora no inverno é que vai ser mau... - continuou a formiga com toda a maldade na voz.- A senhora não depositou nada no banco, não é?
- Não faz mal. Os meus discos não saem das paradas.  E acabei de fechar um contrato com o Olympia  de Paris por duzentos mil dólares…
- O quê?!- exclamou a formiga- A senhora vai ganhar duzentos mil dólares no inverno?
- Não. Isso só em Paris. Depois tem a excursão em Nova York, depois Londres, depois Amsterdam…
Aí a formiga pensou no seu trabalho, nas suas azias, na sua vida terrivelmente cansativa e nas suas ameaças de enfarte, enquanto aquela inútil cigarra ganhava tanto cantando e se divertindo! E perguntou:
- Quando a senhora embarca para Paris?
- Na semana que vem…
- E pode me fazer um favor? Quando chegar a Paris, procure por um tal La Fontaine. E diga-lhe que eu quero que ele vá para o raio que o parta!

Adaptação feita por Pedro Bandeira do texto do escritor português Antônio A. Batista


A cigarra e a formiga boa – fábula de Monteiro Lobato

Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas. Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas. A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique, tique, tique…
Aparece uma formiga, friorenta, embrulhada num xalinho de paina.

- Que quer? – perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
- Venho em busca de um agasalho. O mau tempo não cessa e eu…
A formiga olhou-a de alto a baixo.
- E o que fez durante o bom tempo, que não construiu sua casa?
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois de um acesso de tosse:
- Eu cantava, bem sabe…
- Ah! … exclamou a formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
- Isso mesmo, era eu…
- Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.
A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.

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