sexta-feira, 14 de junho de 2013

Versos que fazem bem
Pesquisadores da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, afirmam que ler poesia ajuda no desenvolvimento cognitivo.
Por Edgard Murano
Em outras épocas, já coube à poesia um papel fundamental na formação das pessoas. Num passado escolar que hoje nos parece tão distante quanto a palmatória, exigiam-se dos estudantes noções de versificação e o conhecimento de alguns poemas de cor. Hoje, porém, ler poetas como Camões, Drummond, Shakespeare, João Cabral de Melo Neto e outros clássicos já não é exigência, infelizmente, mas pode ser que argumentos da neurociência ajudem os leitores a enxergar o que os poetas sempre souberam: ler poesia faz bem.

Cientistas da Universidade de Liverpool divulgaram um estudo que consistiu no monitoramento da atividade cerebral de 30 voluntários, que se dispuseram a ler o começo de determinados poemas para, em seguida, ler novamente os mesmos trechos, porém adaptados a uma linguagem mais coloquial. Ao se deparar com termos menos frequentes, estruturas sintáticas atípicas e semântica complexa, a atividade cerebral disparou, o que não ocorreu durante a leitura dos trechos simplificados.

De acordo com o professor Phillip Davis, que participou do estudo, a leitura desses versos estimulou a parte do cérebro associada à memória e à emoção, permitindo que os voluntários refletissem sobre suas vidas. A pesquisa, contudo, mais do que incentivar a leitura de poesia, chama a atenção para a importância de se ler "livros difíceis", sobretudo numa época em que educadores parecem estar mais preocupados em oferecer aos estudantes textos acessíveis.


A Poesia


Queridos leitores

Que tal um pouco de poesia?
Sempre que trabalho com poemas percebo a dificuldade que meus alunos apresentam quando precisam interpretar poemas. Seja pela falta de experiência, pela falta de conhecimento de mundo, ou ainda pela falta de vocabulário, é impossível saber, mas o fato é que quando estão diante de um poema, os alunos ficam inseguros e repletos de dúvidas.
Para a maioria dos jovens, o poema intimida, assusta, talvez porque o poema possui uma linguagem mais densa, carrega as figuras de linguagem que, na maioria das vezes não são decifradas pelos jovens.
É importante que os jovens saibam que um poema, assim como um texto narrativo possui intenção comunicativa, portanto deve ser lido, interpretado, sentido por seu leitor.
Por não ser tão direto, o poema pode causar insegurança em quem o lê, por isso é importante ter em mente que o poema também pode transmitir uma ideia, um acontecimento ou sentimento ao seu leitor.
É necessário saber que o poema deve ser lido e sentido, como se as palavras penetrassem no leitor, como se o texto ser sentido, “degustado”, assim será possível entendê-lo.
Para interpretar o poema, devemos prestar atenção às rimas (quando houver), às metáforas, ás imagens criadas pelas palavras. Por ter se originado da fala humana, pelo ritmo, pela sonoridade do poema, é necessário estar atento às palavras, ao ritmo da leitura.
Torna-se mais fácil entender o poema quando sabemos em qual estilo literário ele está inserido, pois eles mudam muito dependendo da Escola Literária a que pertencem, conhecer um  pouco  sobre seu autor.
Agora, um pouco de poesia...

Mãos Dadas

 Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco. 
Também não cantarei o mundo futuro. 
Estou preso à vida e olho meus companheiros 
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. 
Entre eles, considere a enorme realidade. 
O presente é tão grande, não nos afastemos. 
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. 
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história. 
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela. 
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. 
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins. 
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, 
a vida presente.

Os Ombros Suportam o Mundo
Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.














terça-feira, 11 de junho de 2013

Livro: a troca

Lygia Bojunga Nunes

Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena os livros me deram casa e comida.
Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo; em pé, fazia parede; deitado, fazia degrau de escada;
inclinado, encostava num outro e fazia telhado. E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá dentro pra brincar de morar em livro.
De casa em casa eu fui descobrindo o mundo (de tanto olhar pras paredes). Primeiro, olhando desenhos; depois, decifrando palavras.
Fui crescendo; derrubei telhados com a cabeça. Mas fui pegando intimidade com as palavras. E quanto mais íntimas a gente ficava, menos eu ia me lembrando de consertar o telhado ou de construir novas casas. Só por causa de uma razão: o livro agora alimentava a minha imaginação.
Todo dia a minha imaginação comia, comia, comia; e de barriga assim toda cheia, me levando pra morar no mundo inteiro: iglu, cabana, palácio, arranha-céu, era só escolher e pronto, o livro me dava.
Foi assim que, devagarinho, me habituei com essa troca tão gostosa que - no meu jeito de ver as coisas - é a troca da própria vida; quanto mais eu buscava no livro, mais ele me dava.
Mas como a gente tem mania de sempre querer mais, eu cismei um dia de alargar a troca: comecei a fabricar tijolo pra - em algum lugar - uma criança juntar com outros, e levantar a casa onde ela vai morar.

Lygia Bojunga Nunes. Livro - um encontro com Lygia Bojunga Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 1990.
http://pescandoletras.blogspot.com.br/search/label/Conto%20Infanto-juvenil

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Quando a escola é de vidro 

Ruth Rocha

Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito.
Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes...
Eu ia pra escola todos os dias de manhã e quando chagava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro.
É, no vidro!
Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não!
O vidro dependia da classe em que a gente estudava.
Se você estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho.
Se você fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior.
E assim, os vidros iam crescendo á medida em que você ia passando de ano.
Se não passasse de ano era um horror.
Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado.
Coubesse ou não coubesse.
Aliás nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros.
E pra falar a verdade, ninguém cabia direito.
Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim era confortável.
Os muitos altos de repente se esticavam e as tampas dos vidros saltavam longe, ás vezes até batiam no professor.
Ele ficava louco da vida e atarraxava a tampa com força, que era pra não sair mais.
A gente não escutava direito o que os professores diziam, os professores não entendiam o que a gente falava...
As meninas ganhavam uns vidros menores que os meninos.
Ninguém queria saber se elas estavam crescendo depressa, se não cabia nos vidros, se respiravam direito...
A gente só podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de educação física.
Mas aí a gente já estava desesperado, de tanto fica r preso e começava a correr, a gritar, a bater uns nos outros.
As meninas, coitadas, nem tiravam os vidros no recreio. e na aula de educação física elas ficavam atrapalhadas, não estavam acostumadas a ficarem livres, não tinha jeito nenhum para Educação Física.
Dizem, nem sei se é verdade, que muitas meninas usavam vidros até em casa.
E alguns meninos também.
Estes eram os mais tristes de todos.
Nunca sabiam inventar brincadeiras, não davam risada á toa, uma tristeza!
Se agente reclamava?
Alguns reclamavam.
E então os grandes diziam que sempre tinha sido assim; ia ser assim o resto da vida.
Uma professora, que eu tinha, dizia que ela sempre  tinha usado vidro, até pra dormir, por isso que ela tinha boa postura.
Uma vez um colega meu disse pra professora que existem lugares onde as escolas não usam vidro nenhum, e as crianças podem crescer a vontade.
Então a professora respondeu que era mentira, que isso era conversa de comunistas. Ou até coisa pior...
Tinha menino que tinha até de sair da escola porque não havia jeito de se acomodar nos vidros. E tinha uns que mesmo quando saíam dos vidros ficavam do mesmo jeitinho, meio encolhidos, como se estivessem tão acostumados que até estranhavam sair dos vidros.
Mas uma vez, veio para minha escola um menino, que parece que era favelado, carente, essas coisas que as pessoas dizem pra não dizer que é pobre.
Aí não tinha vidro pra botar esse menino.
Então os professores acharam que não fazia mal não,já que ele não pagava a escola mesmo...
Então o Firuli, ele se chamava Firuli, começou a assistir as aulas sem estar dentro do vidro.
O engraçado é que o Firuli desenhava melhor que qualquer um, o Firuli respondia perguntas mais depressa que os outros, o Firuli era muito mais engraçado...
E os professores não gostavam nada disso...
Afinal, o Firuli podia ser um mal exemplo pra nós...
E nós morríamos de inveja dele, que ficava no bem-bom, de perna esticada, quando queria ele espreguiçava, e até mesmo que gozava a cara da gente que vivia preso.
Então um dia um menino da minha classe falou que também não ia entrar no vidro.
Dona Demência ficou furiosa, deu um coque nele e ele acabou tendo que se meter no vidro, como qualquer um.
Mas no dia seguinte duas meninas resolveram que não iam entrar no vidro também:
- Se o Firuli pode por que é que nós não podemos?
Mas Dona Demência não era sopa.
Deu um coque em cada uma, e lá se foram elas, cada uma pro seu vidro...
Já no outro dia a coisa tinha engrossado.
Já tinha oito meninos que não queriam saber de entrar nos vidros.
Dona Demência perdeu a paciência e mandou chamar seu Hermenegildo que era o diretor lá da escola.
Seu Hermenegildo chegou muito desconfiado:
- Aposto que essa rebelião foi fomentada pelo Firuli. É um perigo esse tipo de gente aqui na escola. Um perigo!
A gente não sabia o que é que queria dizer fomentada, mas entendeu muito bem que ele estava falando mal do Firuli.
E seu Hermenegildo não conversou mais. Começou a pegar as meninos um por um e enfiar à força dentro dos vidros.
Mas nós estávamos loucos para sair também, e pra cada um que ele conseguia enfiar dentro do vidro - já tinha dois fora.
E todo mundo começou a correr do seu Hermenegildo, que era pra ele não pegar a gente, e na correria começamos a derrubar os vidros.
E quebramos um vidro, depois quebramos outro e outro mais dona Demência já estava na janela gritando - SOCORRO! VÂNDALOS! BÁRBAROS!
(pra ela bárbaro era xingação).
Chamem o Bombeiro, o exército da Salvação, a Polícia Feminina...
Os professores das outras classes mandaram cada um,um aluno para ver o que estava acontecendo.
E quando os alunos voltaram e contaram a farra que estava na 6° série todo mundo ficou
assanhado e começou a sair dos vidros.
Na pressa de sair começaram a esbarrar uns nos outros e os vidros começaram a cair e a quebrar.
Foi um custo botar ordem na escola e o diretor achou melhor mandar todo mundo pra casa, que era pra pensar num castigo bem grande, pro dia seguinte.
Então eles descobriram que a maior parte dos vidros estava quebrada e que ia ficar muito caro comprar aquela vidraria tudo de novo.
Então diante disso seu Hermenegildo pensou um pocadinho, e começou a contar pra todo mundo que em outros lugares tinha umas escolas que não usavam vidro nem nada, e que dava bem certo, as crianças gostavam muito mais.
E que de agora em diante ia ser assim: nada de vidro, cada um podia se esticar um bocadinho, não precisava ficar duro nem nada, e que a escola agora ia se chamar Escola Experimental.
Dona Demência, que apesar do nome não era louca nem nada, ainda disse timidamente:
- Mas seu Hermenegildo, Escola Experimental não é bem isso...
Seu Hermenegildo não se perturbou:
- Não tem importância. Agente começa experimentando isso. Depois a gente experimenta outras coisas...
E foi assim que na minha terra começaram a apareceras Escolas Experimentais.
Depois aconteceram muitas coisas, que um dia eu ainda vou contar...

Reflexões sobre leitura e escrita

Caros leitores
Continuando nossas reflexões acerca da leitura e escrita, pensemos sobre a nossa responsabilidade de ensinar nossos alunos a ler, interpretar e escrever. A professora Adalgiza aborda com muita propriedade que a leitura, interpretação e escrita deve ser ensinada por professores de todas as disciplinas, e não apenas pelos professores de Língua Portuguesa. 
Boa leitura!

  Adalgiza Olveira da Silva Figueiredo


        Ler e escrever são tarefas da escola, questões para todas as áreas, uma vez que são habilidades indispensáveis para a formação de um estudante, que é responsabilidade da escola. (Paulo Coimbra Guedes)

A leitura e a escrita, ainda hoje, são um dos pontos frágeis na educação, deparamos com inúmeros equívocos no que se refere a quem cabe o ofício de se ensinar a ler e escrever.
A prática constante de leitura e escrita devem ser incorporadas pela escola como meta primordial envolvendo todas as áreas do conhecimento, “uma vez que são habilidades indispensáveis, para a formação do educando”. (p.15-Paulo C Guedes, Jane M de Souza-2006) É dever de a escola oportunizar ao aluno condições de se apropriarem de conhecimentos historicamente constituídos, de se sentirem construtores e produtores desses conhecimentos e de bons textos.
Acredito e defendo a tese de que é tarefa de todas as áreas, mediarem o trabalho de leitura e escrita, cada qual em suas especificidades. Cabe a cada disciplina atuar nesse trabalho de forma criativa, argumentativa, reflexiva e, acima de tudo, crítica porque a reflexão de tudo que vemos, ouvimos e lemos deverá ser expressa por escrito.
A leitura e a escrita devem ser incentivadas dentro da sala de aula, independente, da área a ser trabalhada, orientada pelo professor. É tarefa árdua pelo fato de que nossos alunos não possuem o hábito da leitura, pois na maioria das vezes o único contato com a leitura é na escola, a família pouco contribui ou, em muitas vezes, nada contribuem em favor do despertar dos seus filhos ao mundo da leitura e da escrita. Dessa forma, a escola tenta realizar um trabalho focado na leitura e escrita, o que não é nada fácil.
Percebemos em nossa prática pedagógica que vivemos rodeados de variações linguísticas e que na oralidade as crianças se entendem se comunicam sem nenhum pudor, porém, ao escrever deverá se portar na escrita em uma linguagem formal muito diferente da oralidade. As pesquisas nos mostram que falamos uma língua e temos de aprender a ler e escrever em outra língua.
Os estudos de nossa língua falada levada a efeito por vários pesquisadores, entre eles um grande grupo de linguistas de todo Brasil reunidos no Projeto de Gramática de Português falado, estão mostrando não só que há uma grande variação linguística (geográfica e social) interna no País—Ao contrário do que sempre disse o mito da unidade linguística brasileira—mas também que a língua que falamos difere muito da língua falada em Portugal, a qual deu origem ao português escrito. Na verdade, hoje podemos dizer que falamos uma língua e temos de aprender a ler e escrever em outra língua. (Guedes & Souza, 2006: p.16)
         A prática pedagógica me conduziu a uma reflexão sobre o ato de ler e escrever cabe a quem essa função? Lembro–me de muitas passagens onde sempre ouvia do professor de matemática, história e outras disciplinas, que não lhes cabia a função de corrigir e ou solicitar produções de textos e leituras dos seus alunos. Limitavam-se, apenas, a solicitar respostas copiadas dos livros didáticos. O que percebemos, hoje, é que esse paradoxo está sendo revisto e repensado por parte de muitos educadores e estudiosos do assunto que focam essas questões como tarefa e obrigação de todas as áreas, que leitura e escrita é “dever da escola”. E, de vagarinho todas as áreas estão começando a desempenhar esse papel de formador de bons leitores e bons escritores.
A escola é o único veículo mediador do processo ensino aprendizagem dessas variações linguísticas tão complicadas na visão dos educandos. Tornam-se uma constante as indagações sobre o ler e escrever corretamente o nosso português, só vamos ser escritores competentes se praticarmos a leitura de diferentes textos e interagindo com eles de forma crítico- reflexiva e argumentativa. A escola é o único local onde efetivamente se aprende a ler e escrever.
Cabe então o ofício a todos os professores de todas as áreas, a responsabilidade de mediar o trabalho de leitura e escrita cada qual nas suas especificidades, incentivando nossos educandos a produzirem textos com coerência e coesão, opinando, argumentando, criticando e /ou analisando cada assunto de forma prazerosa e eficiente. “Ler tudo, desde as banalidades até as coisas que o professor julgar que devem ser lidas para o desenvolvimento pessoal do aluno como pessoa sensível, civilizada, culta, como cidadão para o estabelecimento de seu senso estético, de sua solidariedade humana, do seu conhecimento”. (p17-Paulo C Guedes, Jane M. de Souza-2006) É tarefa e responsabilidade de todas as áreas.

A leitura e a escrita devem ser incentivadas dentro da sala de aula, orientada pelo professor. Este deve oportunizar a vivência e o encantamento da descoberta dos muitos sentidos de um texto. Na escrita o incentivo deve ser o mesmo, proporcionando aos alunos oportunidades para que escrevam de forma significativa aos leitores a quem querem informar, convencer, persuadir ou comover. Acabarão por descobrir que produzir texto não é uma tarefa tão penosa quanto parece.
Não basta ensinar os conteúdos de língua portuguesa desvinculados das demais disciplinas, é necessário fazê-lo de forma interdisciplinar associando-os às demais áreas do conhecimento. É necessário promover o diálogo interdisciplinar, se quisermos que o aluno adquira a visão do todo. É necessário transformar a sala de aula em um espaço no qual se discutam as problemáticas sociais, atuais e urgentes, as relações interpessoais e os valores que as norteiam.
É imprescindível que façamos de nossas salas de aula a primeira ponte para as atividades de leitura e escrita independente da área a ser trabalhada.
O despertar do prazer de atribuir sentido a um texto, cada qual em sua área num trabalho multidisciplinar e transdisciplinar é tarefa e responsabilidade de todas as disciplinas. Aprender a ler analisar, construir sentidos e significados dentro do conjunto de possibilidades apresentadas pelos textos são habilidades indispensáveis no planejamento de todas as áreas.
Nossos alunos acabarão descobrindo que escrever não é tarefa tão difícil e nem impossível de se realizar, descobrirão que são capazes de escrever  e que essa tarefa é tão prazerosa quanto o ato de ler e descobrir o que está nas entrelinhas do texto,a intencionalidade de quem o escreve  e que ele próprio pode ser o escritor de sua própria história.
É a ponte que cada professor vai utilizar em sala de aula para realizar árdua tarefa de despertar em cada educando o gosto e o prazer pelo ato de ler e escrever sem a preocupação de apenas corrigir os erros de ortografia ou de concordância, mas orientando-os a reescrita desses textos de forma mais clara e concisa, fazendo-o perceber que o texto escrito por ele é propriedade de todos e todos devem lê-lo.
Encerro minhas reflexões com as palavras de *Paul Klee “que dizia que artista não explica, simplesmente faz ver. O artista mostra as coisas, aponta, indica. Fazer ver. Nitzsche dizia que esta é a primeira função da educação. O professor tem a missão de abrir os olhos dos alunos porque, vendo ele não precisa de argumento”.
Todo educador tem o dever e a responsabilidade de mediar o seu trabalho conduzindo seu educando ao hábito da leitura, não pela imposição, e sim pelo prazer da descoberta.


  Professora  da “E. E. Desembargador Gabriel Pinto de Arruda”



quinta-feira, 6 de junho de 2013

Entrevista de Isabel Solé para Revista Nova Escola


 Para Isabel Solé, a leitura exige motivação, objetivos claros e estratégias

Para a especialista, o professor ajuda a formar leitores competentes ao apresentar, discutir e exercitar as principais ações para a interpretação

Rodrigo Ratier
    
Pesquisas sobre como o leitor interage com o texto circulam no ambiente das universidades desde a década de 1970. Coube à espanhola Isabel Solé, professora do departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação na Universidade de Barcelona, na Espanha, trazer a discussão para as salas de aula. Publicado originalmente em 1992, seu livro Estratégias de Leitura esmiúça o papel do professor na formação de leitores competentes (leia a resenha do livro). "O ensino das estratégias de leitura ajuda o estudante a aplicar seu conhecimento prévio, a realizar inferências para interpretar o texto e a identificar e esclarecer o que não entende", explica. De sua casa, em Barcelona, Isabel apontou caminhos para a atuação prática.
 
Qual a maior contribuição do livro Estratégias de Leitura para a aprendizagem em sala de aula?
ISABEL SOLÉ Eu diria que o maior mérito foi colocar ao alcance dos professores de Educação Básica uma forma de pensar e entender a leitura que já era bastante conhecida no âmbito acadêmico, mas ainda não tinha muito impacto na prática educativa. Afinal, são os docentes que de fato contribuem para a melhoria da aprendizagem da leitura.

O que a escola ensina sobre a leitura e o que deveria ensinar?
ISABEL Basicamente, a escola ensina a ler e não propõe tarefas para que os alunos pratiquem essa competência. Ainda não se acredita completamente na ideia de que isso deve ser feito não apenas no início da escolarização, mas num processo contínuo, para que eles deem conta dos textos imprescindíveis para realizar as novas exigências que vão surgindo ao longo do tempo. Considera-se que a leitura é uma habilidade que, uma vez adquirida pelos alunos, pode ser aplicada sem problemas a múltiplos textos. Muitas pesquisas, porém, mostram que isso não é verdade.

Hoje em dia, o que significa ler com competência?
ISABEL
Quando o objetivo é aprender, isso significa, em primeiro lugar, ler para poder se guiar num mundo em que há tanta informação que às vezes não sabemos nem por onde começar. Em segundo lugar, significa não ficar apenas no que dizem os textos, mas incorporar o que eles trazem para transformar nosso próprio conhecimento. Pode-se ler de forma superficial, mas também pode-se interrogar o texto, deixar que ele proponha novas dúvidas, questione ideias prévias e nos leve a pensar de outro modo.

Ensinar a ler é uma tarefa de todas as disciplinas?
ISABEL Sim. Não apenas para aprender, mas também para pensar. A leitura não é só um meio de adquirir informação: ela também nos torna mais críticos e capazes de considerar diferentes perspectivas. Isso necessita de uma intervenção específica. Se eu, leitora experiente, leio um texto filosófico, provavelmente terei dificuldades, pois não estou familiarizada com esse material. É preciso planejar estratégias específicas para ensinar os alunos a lidar com as tarefas de leitura dentro de cada disciplina.

Como os professores das diferentes áreas devem se articular entre si?
ISABEL O que aprendi em minhas conversas com professores é que os da área de línguas têm um papel importantíssimo para ajudar os alunos a melhorar a leitura e a composição de textos no campo de ação da própria língua e da literatura. Os responsáveis pelas demais disciplinas, por sua vez, podem lidar com textos mais específicos. Aliás, como assinalam muitos especialistas, quem leciona também deve aprender progressivamente a compreender e produzir os textos próprios de suas áreas. Em seguida, uma assembleia de professores ou a coordenação podem planejar que, digamos, o titular de História ensine a resumir textos como relatos, que o de Ciências ajude a produzir relatórios e a entender textos instrucionais e assim por diante. Outra proposta é, sempre que possível, trabalhar com enfoques mais globalizantes, com toda a equipe reforçando procedimentos de leitura e produção escrita.

Como é possível motivar os alunos para a leitura?
ISABEL Uma boa forma de um docente fomentar a leitura é mostrar o gosto por ela - quer dizer, comentar sobre os livros preferidos, recomendar títulos, levar um exemplar para si mesmo quando as crianças forem à biblioteca. Os estudantes devem encontrar bons modelos de leitor na escola, especialmente aqueles que não possuem isso em casa.

E como despertar o interesse para a leitura para aprender?
ISABEL
O fundamental é que os alunos compreendam que, se estão envolvidos em um projeto de construção de conhecimento ou de busca e elaboração de informações, é para cobrir uma necessidade de saber. Muitas vezes, o problema é que que eles não sabem bem o que estão fazendo. Nesse caso, é natural que o grau de participação seja o mínimo necessário para cumprir a tarefa. Quando os objetivos de leitura são claros, é mais fácil estar disposto a consultar textos ou a procurar algo numa enciclopédia.

De que forma as estratégias realizadas antes, durante e depois da leitura podem auxiliar a compreensão?
ISABEL Elas ajudam o estudante a utilizar o conhecimento prévio, a realizar inferências para interpretar o texto, a identificar as coisas que não entende e esclarecê-las para que possa retrabalhar a informação encontrada por meio de sublinhados e anotações ou num pequeno resumo, por exemplo.

Se pudesse modificar algum ponto em seu livro, qual seria?
ISABEL
Eu insistiria muito mais na conexão profunda que existe entre leitura e escrita quando o objetivo é aprender. Essa tarefa híbrida entre a leitura e a elaboração do que se lê por meio de resumos, sínteses e notas tem um impacto muito importante na aprendizagem. Algo que tenho visto nas investigações mais recentes do grupo de pesquisa de que faço parte é que muitos alunos, quando têm de fazer um resumo depois de ler, cumprem a tarefa sem voltar ao texto original para ver se o que se destacou é fiel ao que se leu. Creio que é preciso romper com a sequência "primeiro ler depois escrever". Em vez disso, é melhor pensar que se faz uma leitura já com o propósito de escrever, num processo que envolve a revisão do escrito.
 

Cecília Meireles, Bertold Brecht, Marina Colasanti

Poema de Cecília Meireles
 
Se você errou
Se você errou, peça desculpas...

É difícil perdoar?
Mas quem disse que é fácil se arrepender?

Se você sente algo diga...

É difícil se abrir?
Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar?

Se alguém reclama de você, ouça...

É difícil ouvir certas coisas?
Mas quem disse que é fácil ouvir você?

Se alguém te ama, ame-o...

É difícil entregar-se?
Mas quem disse que é fácil ser feliz?

Nem tudo é fácil na vida...
Mas, com certeza, nada é impossível...
 
Texto de Bertold Brecht
 
Se os tubarões fossem homens
 
Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?
Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adoptariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direcção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.
O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.
Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói.
Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.
Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões.
Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas, etc.
Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar.
 
Texto de Marina Colasanti
 
Eu sei, mas não devia
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para
ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do
corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(Do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.)
 
 

O curioso mundo da leitura! (IMAGENS)

Alguns apaixonam-se por bebidas, dinheiro, luxos, carros, sapatos...Outros apaixonam-se por livros. Pois, o prazer de ter e ler um livro é  único. Daí, entedemos a razão de Clarice Lispector chamar o livro de amante. Com ele nas mãos podemos possuí-lo. Outra coisa que muito me encanta num livro é a capa.
Mas, como dizem não devemos julgar o livro pela capa. Quando nos apaixonamos por eles nos envolvemos em suas tramas.
Vale ressaltar, que essa paixão começa pelo obra e termina no autor, e, às vezes, ao contrário.
Contudo, há momentos que só passamos, quando lemos. Eis alguns, citados pela autora Isabel Solé em seu livro Estratégias de Leitura (Artmed.p.13, 1998):
quem não tiver passado nunca tardes inteiras diante de um livro, com as orelhas ardendo e o cabelo caído no rosto lendo, esquecido do mundo e sem perceber que estava com fome ou com frio...                           quem nunca tiver lido à luz de uma lanterna, embaixo das cobertas, porque papai, mamãe ou alguma outra pessoa solícita apagou a luz com o argumento bem intencionado de que tem de dormir, porque amanhã precisa levantar bem cedinho..                                                                                                                            quem nunca tiver chorado aberta ou dissimuladamente lágrimas amargas porque uma história maravilhosa acabou e era preciso se despedir dos personagens com os quais tinha ocorrido tantas aventuras, que amava e admirava pelo destino dos quais temera e rezava e sem cuja companhia  e vida parecia vazia e sem sentido. 
Portanto, essas são ações de qualquer amante e apaixonado por leitura.

Professora Roberta Carvalho Zilio














Artigo para reflexão

Queridos leitores
Dando sequência às nossas reflexões, apresento a vocês um texto de Sandra Papesky Sabbag, formadora de docentes, ela nos mostra uma visão clara sobre a formação de leitores. Este texto vai de encontro ao que temos discutido sobre a formação de jovens leitores.
Vale a pena conferir!

Práticas de leitura e reflexão para uma educação sustentável
Sandra Papesky Sabbag
Formar cidadãos é também formar leitores competentes, sem o que não poderíamos pretender pessoas com pensamento complexo, capazes de resolver problemas complexos, como propõe o ensino com enfoque globalizador.
“Um leitor competente sabe selecionar, dentre os textos que circulam socialmente, aqueles que podem atender a suas necessidades, conseguindo estabelecer as estratégias adequadas para abordar tais textos. O leitor competente é capaz de ler as entrelinhas, identificando, a partir do que está escrito, elementos implícitos, estabelecendo relações entre o texto e seus conhecimentos prévios ou entre o texto e outros textos já lidos.” (Brasil, 1998, p. 70). Essa citação, de certa forma, convida-nos a refletir sobre os fins sociais da educação: que tipo de cidadão pretendemos formar? Seria a escola a principal referência de formar cidadãos? Estaria essa cidadania voltada à ampliação dos meios de acesso ao patrimônio cultural da humanidade e, para isso, seria a linguagem escrita a mediação por excelência?

São várias as possibilidades de questionamento que podem decorrer da postura do professor em refletir sobre suas concepções de ser humano e de sociedade, seus valores, sua prática pedagógica, contextualizados na perspectiva da formação de um “cidadão planetário” (Morin e Kern, 2001), capaz de realizar ações sustentáveis que contribuam para a melhoria da qualidade de todas as formas de vida no presente e, consequentemente, no futuro.

No final do século passado, tivemos a publicação dos quatro pilares da educação básica (Delors, 2001) – aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser –, os quais apontam para a formação integral ou global da pessoa. Isso significa que, respeitadas as diversidades culturais, há princípios para uma educação básica mundial, planetária, fundamentada no paradigma da complexidade. 

Ao nos referirmos ao conceito de sustentabilidade, muitas vezes o reduzimos (sem tomarmos consciência disso) ao nível do desenvolvimento econômico das sociedades: associamos a esse conceito expressões como “reciclagem”, “redução de consumo de água e de energia”, “descarte correto de lixo tóxico, como pilhas e baterias, para não causar danos ao meio ambiente natural”, etc. Todas essas ações implicam a sustentabilidade, mas não podemos esquecer que, para realizá-las, é preciso educar as pessoas (a começar por nós mesmos) para assim procedermos. 

A competência leitora como mediação por excelência
As pessoas são natureza; as pessoas também são cultura. A articulação entre natureza e cultura na identidade do humano evidencia sua constituição complexa. Formar para a cidadania planetária é, portanto, formar pessoas com valor ético-moral sustentável, porque toda a participação que terão na(s) sociedade(s) implica colaboração, respeito, sensibilidade, empatia, domínio de conhecimento específico e cultura geral, capacidade de aprender continuamente. Essa formação tem por fundamentos epistemológicos e políticos o enfoque globalizador ou a perspectiva globalizadora que se manifesta na escola através do compromisso de “potencializar nas crianças as capacidades que lhes permitam responder aos problemas reais em todos os âmbitos de desenvolvimento pessoal, sejam sociais, emocionais ou profissionais (...). Ser capazes de compreender e intervir na realidade comporta dispor de instrumentos cognoscitivos que permitam lidar com a complexidade (...)” (Zabala, 2002, p. 35).

Podemos compreender que um desses instrumentos cognoscitivos que possibilitam a aquisição de outros é a competência leitora. Isso me faz voltar aos questionamentos iniciais antes de avançar na construção do artigo: formar cidadãos é também formar leitores competentes, sem o que não poderíamos pretender pessoas com pensamento complexo, capazes de resolver problemas complexos, como propõe o ensino com enfoque globalizador. Nesse enfoque, o pensamento complexo é estimulado, de modo que o aluno consiga escolher instrumentos conceituais e metodológicos das diferentes áreas do conhecimento diante dos problemas reais que lhe são apresentados na tentativa de resolvê-los (Zabala, 2002).

 Ouso afirmar que seria humanamente impossível fazer a escolha desses instrumentos sem ser um leitor competente, já que a linguagem escrita é a mediação para a conservação e a criação desses instrumentos, bem como o meio privilegiado de acessá-los. Muitas vezes, os alunos não conseguem compreender novos conhecimentos porque não desenvolveram a competência leitora que subsidia também hábitos de estudo e de reflexão. 

O papel do professor como agente de letramento, isto é, responsável por criar estratégias facilitadoras da compreensão leitora (Bortoni-Ricardo, Machado e Castanheira, 2010) vai ao encontro do que consta nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (Brasil, 1998, p. 72): “Todo professor, não apenas o de língua portuguesa, é também professor de leitura”. 

Se a leitura é uma competência mediadora da qual depende a construção de saberes inter-relacionados, é inegável que, desde a formação inicial do professor, os formadores devem proporcionar práticas de leitura de textos diversificados para que os procedimentos de leitura façam parte do amplo acervo de competências do professor. Assim, ele poderá efetivamente formar outros leitores competentes e colaborar para a construção da cidadania planetária sustentável.

Um olhar para a formação de professores
Como formadora de professores nos cursos de licenciatura, tenho procurado garantir práticas de leitura dentro e fora da sala de aula, mostrando aos futuros docentes a necessidade de conhecer para transformar, de nutrir a mente com conceitos e saberes publicados, a fim de terem consistência na argumentação e passarem a exercitar a autoria fundamentada naquilo que foi lido, relido, estudado, dialogado. Observo com frequência que certos alunos não apresentam procedimentos de estudo e leem o texto solicitado, mas não hesitam em afirmar que não entenderam nada. Cumprem a tarefa sem processamento da informação, transferindo a responsabilidade da compreensão e da aprendizagem ao professor, esperando que ele faça a exposição do conteúdo do texto. Ainda sustentam o mito de que “basta assistir às aulas para aprender” e justificam “não conseguir tempo para ler fora da sala de aula porque trabalham”.
Ao constatar no ensino superior – e, particularmente, na formação de professores – esse triste fato, o qual revela que, apesar de anos de escolarização, nem sempre a escola conseguiu formar o leitor competente, comecei a ensinar futuros docentes a ler com a intenção de compreender, de estabelecer relações com conhecimentos já adquiridos, de identificar exemplos na vida social relacionados ao conteúdo da leitura prévia que precede a aula. Então, como proceder a esse tipo de leitura? Oriento para que leiam e grifem o que lhes chama a atenção, que façam lembretes no próprio texto ao estabelecer alguma relação com ele, que recorram ao dicionário quando desconhecem o vocabulário, que usem o diário de formação docente para fazer registros pessoais relacionados à aprendizagem possibilitada pelo diálogo com o texto. 

O diário é um instrumento de sistematização das aprendizagens decorrentes da leitura e das aulas, facilitando-lhes a tomada de consciência do próprio posicionamento diante de si, do outro e do mundo. Nesse sentido, serve também como instrumento de autoavaliação e conecta a competência leitora à competência escritora. Em aula, ao coletivizarmos a compreensão do texto, com o intuito de ampliar o conhecimento de todos nós, peço que retomem o diário e o próprio texto lido com as anotações ou os grifos feitos e sistematizo-os na lousa. A partir disso, dialogamos sobre os tópicos, aprofundamos conceitos, estabelecemos novas relações. Transcendemos, com competência, as entrelinhas do discurso ou fazemos novas proposições, constituindo-nos como autores de texto. Lemos outros autores para desenvolver nossa própria autoria (Demo, 2011).

Também há outra dificuldade diagnosticada quando solicito, nos primeiros dias de aula, a leitura em voz alta: os alunos tendem a “pular” as notas de rodapé com a indicação de referências ou a “pular” nomes e datas entre parênteses que aparecem numa linha ou noutra, como se não estivessem lá escritos. Ao perguntar-lhes sobre a função das notas de rodapé ou o que significam esses parênteses com a indicação de sobrenomes e datas no desenvolvimento de um texto, são raros os alunos que dizem ser “autores de referência” daquele texto. 

Prossigo com os alunos, apresentando-lhes as características do texto científico: ensino-os a indicar as referências quando pesquisam, peço que observem os parênteses no texto com a indicação parcial da referência e, ao final dele, localizem a indicação completa. Daí em diante, solicito que procedam da mesma maneira ao se utilizarem da ideia de outro, ou seja, que o referenciem corretamente e, nas leituras seguintes de textos científicos, esses indicadores não são mais ignorados. 
Ressalto que, assim como não cabe somente ao professor de língua portuguesa ser professor de leitura, também não cabe só ao professor de metodologia científica ensinar a ler e a produzir textos científicos Por predominar o conhecimento científico na escola, é triste constatar que, ultimamente, os anos de escolarização da educação básica não sejam suficientes para ensinar a ler e a produzir textos diferentes, e o texto científico, em particular, não tenha tido suas referências devidamente reconhecidas. 

Outra atividade permanente que tenho proposto é a leitura de um texto literário para a classe. A leitura silenciosa difere da leitura para outrem. Esta última exige um preparo anterior, ou seja, o leitor precisa conhecer bem o texto que escolheu ler, modificar a entonação da voz quando o texto “pede”, dadas as variantes emocionais presentes e marcadas não só pelas palavras, mas também pela pontuação empregada. Ler para o outro significa olhar alternadamente para seu interlocutor sem perder a referência da leitura; requer exercício de interpretação porque entendeu o conteúdo e serve de estímulo para ler àquele que escuta. A leitura para outrem do texto literário torna-o “vivo”, capaz de emocionar, de entreter, de contagiar pelo prazer de ler. 

Já trabalhei com outras práticas de leitura como o projeto intitulado Viagem na Literatura, através do qual retomava com os futuros docentes alguns clássicos da literatura, como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Dostoievski, entre outros. Procedíamos da seguinte maneira: os alunos escolhiam na lista de clássicos que eu apresentava um ou mais autores e pesquisavam dados de sua biografia, a contextualização histórica do movimento literário a que pertenciam e características desse movimento, fazendo a seleção de trechos de obras para leitura coletiva com a classe e a indicação da bibliografia pesquisada para compartilhar comigo e com os colegas. É interessante que a maioria dos alunos se surpreende com a vida do escritor, entendendo-o não mais como “mito”, mas como gente que ama, sofre, trabalha, adoece, tem privações e provações na vida e, apesar de tudo, escreve. Escreve para transpor as barreiras da sua condição imediata e, por meio desse movimento, produz literatura do que antes foi somente tragédia, produz beleza literária para os outros do que originariamente foi angústia pessoal. Produz, enfim, material de leitura para as gerações futuras.
Isso também ocorre com a ciência, como observo com os licenciandos em alguns marcos da história das ciências, através de um procedimento de leitura similar ao utilizado no projeto Viagem na Literatura. Podemos afirmar que escritores, independentemente da natureza diversa de seus textos, têm colaborado, ao longo da história da humanidade, para essa sustentabilidade planetária que hoje é tão almejada, justamente pelo uso proficiente da linguagem escrita.

Considerações finais
Quando orientamos os futuros docentes aos objetivos e procedimentos de ler bem, de ler com competência, realizamos nosso papel educacional, comprometidos com a cidadania esperada, à luz do enfoque globalizador. Estabelecer as práticas de leitura com clareza, autenticidade, de forma planejada torna nossas aulas oportunidades de ensinar e aprender para todos. Sempre há tempo de formar o leitor quando tomamos consciência de que esse é dever da escola, portanto, dever de todos os professores, em todos os níveis de ensino.

Convido os professores-leitores deste artigo a uma prática reflexiva (Perrenoud, 2002) coletiva: como estamos participando como cidadãos sustentáveis, colaborativos, na formação de outros, aos quais as futuras gerações serão confiadas? Temos comportamentos leitores para ensinarmos nossos alunos e futuros docentes pelo nosso exemplo em que estaria baseada nossa autoridade moral? Somos professores de leitura ou agentes de letramento numa época em que as aprendizagens não estão reduzidas ao domínio de conceitos, mas também se referem a outros saberes – fazer, ser e conviver na complexidade, o que significa, em essência, formar e formarmo-nos permanentemente para lidar com problemas complexos que demandam competências pessoais articuladas para uma atitude de colaboração em rede, sustentável, admitindo o planeta como pátria? (Morin e Kern, 2001).

As indagações que marcam o início e o fim provisório deste artigo nasceram de muitas leituras e de alguns anos de prática reflexiva do ofício de professor (Perrenoud, 2002), as quais elaborei para ampliar as possibilidades de compartilhamento, reflexão e ação, com o propósito de colaborar para uma educação sustentável, a partir da formação permanente de professores-leitores, da qual todos somos sujeitos.

·         Sandra Papesky Sabbag é pedagoga, mestre e doutora em Psicologia da Educação e professora das Faculdades Oswaldo Cruz (SP). spapesky@hotmail.com
·         Texto disponível em: