Queridos leitores
Que tal um pouco de
poesia?
Sempre que trabalho com poemas percebo a dificuldade que meus alunos
apresentam quando precisam interpretar poemas. Seja pela falta de experiência, pela
falta de conhecimento de mundo, ou ainda pela falta de vocabulário, é
impossível saber, mas o fato é que quando estão diante de um poema, os alunos
ficam inseguros e repletos de dúvidas.
Para a maioria dos jovens, o poema intimida, assusta, talvez porque o
poema possui uma linguagem mais densa, carrega as figuras de linguagem que, na
maioria das vezes não são decifradas pelos jovens.
É importante que os jovens saibam que um poema, assim como um texto
narrativo possui intenção comunicativa, portanto deve ser lido, interpretado,
sentido por seu leitor.
Por não ser tão direto, o poema pode causar insegurança em quem o lê,
por isso é importante ter em mente que o poema também pode transmitir uma
ideia, um acontecimento ou sentimento ao seu leitor.
É necessário saber que o poema deve ser lido e sentido, como se as
palavras penetrassem no leitor, como se o texto ser sentido, “degustado”, assim
será possível entendê-lo.
Para interpretar o poema, devemos prestar atenção às rimas (quando
houver), às metáforas, ás imagens criadas pelas palavras. Por ter se originado
da fala humana, pelo ritmo, pela sonoridade do poema, é necessário estar atento
às palavras, ao ritmo da leitura.
Torna-se mais fácil entender o poema quando sabemos em qual estilo
literário ele está inserido, pois eles mudam muito dependendo da Escola
Literária a que pertencem, conhecer um
pouco sobre seu autor.
Agora, um pouco de poesia...
Mãos Dadas
Carlos Drummond de Andrade
Não
serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Os Ombros Suportam o Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
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